Avaliação comportamental funcional em autismo é uma avaliação formal de diagnóstico, definição de prognóstico e indicação de tratamento. Pode resultar em recomendação de medicação, medidas ambientais, recursos educacionais e sociais, e terapias, incluindo psico, fono, TO e fisioterapia. Avaliação comportamental funcional em autismo é indicada para o início do tratamento, e para seguimento a longo prazo, atualizando a situação periodicamente. Internacionalmente, não se vê atendimento de autismo sem estas avaliações.

Avaliação comportamental funcional em autismo tem semelhança com o estadiamento que se faz, por exemplo, em casos de câncer. Dependendo de ser in situ, primário, com envolvimento de linfonodos próximos ou com metástases à distância, varia se será o câncer ressecado cirurgicamente, tratado com radio ou quimioterapia. Da mesma forma, a doença mental ou neurológica pode ser localizada na fala, no movimento, nas atividades de cuidado pessoal, no aprendizado, e o envolvimento de cada qual tem prognóstico e tratamentos diferentes.

O objetivo da avaliação comportamental funcional em autismo é:

-identificar o perfil funcional de cada criança para planejar a educação e a habilitação para a vida;

-documentar o funcionamento atual para comparação futura;

-contextualizar cada pessoa em um quadro normativo de desenvolvimento pela idade.

As avaliações podem incluir festas, escola, parques, locais de compras, salões de beleza, e serem suplementadas com videos domésticos. As recomendações de tratamento variam com a disponibilidade dos serviços e com a visão de cada família de como devem ser usados os medicamentos, que tem preços e complicações diferentes.

Um caso recente de avaliação comportamental funcional em autismo foi de uma criança de 3 anos que permaneceu conosco por 2 horas, sem acompanhantes. Ele tem desenvolvimento limitado por estereotipias, quer ficar fazendo algo repetidamente, como pular e fazer HUM ou olhar para um colar ou papel que balança em frente aos olhos. Na área motora parece estar em torno dos 2 anos de idade, e na área verbal e social próximo de 1 ano. Faz HUM o tempo todo, e articula nada mais que AAAs.  Ele não tem outros comportamentos sociais e comunicativos com iniciação própria. Não faz jogo funcional, ou seja, não usa brincadeiras para se comunicar. Tem pouco compartilhamento afetivo, não percebe o humor dos outros. Tem pouco engajamento em atenção conjunta. Não tem referenciamento social. Em aproximadamente uma hora ele começou a olhar bem nos olhos do examinador que passou mais tempo com ele; no mesmo período substituímos o pular por outras atividades que ele prefere fazer ao mesmo tempo que olha o colar que balança em frente a seus olhos. Aprendeu a subir com ajuda de uma só mão, e a descer com ajuda de duas mãos, uma escada de 15 degraus. Chegou a ficar sentado quase brincando com Lego, quase trocando objetos, por menos de 2 minutos. Sentou e desenhou com lápis no papel por 6 minutos, com o colar balançando em frente aos seus olhos. Só ficou excitado e pulou mais do que o usual uma vez, quando tentamos restringi-lo a brincar no chão. Não fez brincadeiras inapropriadas, perigosas ou perturbadoras, mesmo com chuva que caía ao lado do pátio onde foi examinado, nem com a água coletada, embora tenha colocado a mão. Não tentou nada com aparelhos e objetos que estavam em volta. Interessou-se por um extintor e colocou a mão. Em resumo, a comunicação é ruim, as estereotipias são intensas e os ataques de comportamentos perturbadores são mínimos. Foi diagnosticado como autismo, CID F84.0, entre moderado e grave.

Foi recomendado tratamento de médio prazo com terapeuta ocupacional ou fisioterapeuta que fizesse esta troca das estereotipias por tarefas funcionais, que ajudassem em seu desenvolvimento, usando os princípios do ABA. Uma medicação como o canabidiol pode ajudar.

Dr Paulo Bittencourt

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