Voltado para si mesmo em mundo particular, o autista teria um mundo próprio? Minha resposta simples é um não. Não há dúvidas da dificuldade e impossibilidade que temos em penetrar no mundo do autista. Contudo, ao contrário, o autista entra no mundo que o cerca num modo particular.

     O autista mais do que ninguém corresponde ao pé da letra à alienação a algum lugar subjetivo. Neste sentido procura manter o mais intacto possível aquele mundo construído por fragmentos de significação própria, e o próprio aqui é o particular que corresponda ao seu modo rígido de elaboração. A rigidez que faz com que a repetição da elaboração se inscreva uma vez e outra vez mais.

     Um jovem autista com 16 anos desenhava fragmentos de uma casa e em seguida a cobria com giz de cera preto. Todas as suas manifestações seguiam o mesmo ritual, fazia fragmentos de casa e recobria com giz de cera preto. Sua mãe o aguardava sair aflita. Com medo que ele saísse correndo, quebrasse alguma coisa, o agarrava pelo braço e como o giz preto lhe recobria apagando sua “casa”. Ele, como fragmento de casa que era as vezes, esperneava, as vezes chorava, mas na maioria das vezes se deixava cobrir. O autista fala, nós é que não sabemos ouvir e sua fala é de uma verdade real.

     Nos dias que se seguiram um risco vermelho se fez ao final da produção. Muitas vezes descoberto, mas na maioria das vezes era coberto também. A família não suportava deixá-lo a descoberto e nem ele sabia muito bem o que fazer dele mesmo naquele fio de pessoa que era. A cobertura era necessária para não ficar solto na natureza, mas tão coberto assim? À esta pergunta a família não quis saber, não suportou, e o retiraram do trabalho contando que não teriam condições em agregar mais trabalho e mais dinheiro em alguém de quem não brotaria nada. Pintava e bordava na escola o advir de qualquer possibilidade de mundo próprio. Nas festas em família, no parquinho do condomínio, seguia encoberto por gritos de pessoas assustadas, medicações equivocadas, lidas por ele como preto, apagamento de si.  Recolhiam num fio de nada, vez ou outra, um olhar.   

     O autista denuncia o mundo ao qual está alienado na medida em que vive dentro dele.  Na família um fazer cego que dá direção à sua criança, a qual se desenha em denúncia. Um ensaio sobre a cegueira.

             Cegueira que o autista desvenda num real incômodo. Frágil é certo, mas que lhe forja pedaço por pedaço um ser alienado aos outros, à mercê do outro, um pedaço de gente embrenhada neste lamaçal, argila que poderá formar alguém.

Trabalhar com um autista precisa ter ancoragem, suporte de trabalho na ética de dar-lhe elaboração naquilo que faz, por onde a coisa toda muda, uma construção a dois por onde o escultor é ele.

Rosana de Oliveira Pereira – Psicanalista

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