Canabinóides são uma fonte frequente de interesse por parte de muitas pessoas com uma variedade de problemas clínicos. A impressão é que estas pessoas enxergam nos canabinoides uma solução para muitas situações clínicas. Porém, transformar esta ideia em algo prático esbarra inicialmente na disponibilidade no Brasil. Agora mesmo tive um caso de um paciente com esclerose múltipla que gastou R$ 650 para comprar um líquido preto com um odor estranho, químico, em uma garrafinha estranha, vindo do estado de Minas Gerais, com a informação de que era canabidiol para esclerose múltipla. Esta é uma ocorrência que deve ser muito comum Brasil afora, na era das pessoas acreditarem no que leem na internet mais do que em seus médicos.

Até nossos dias, o medicamento disponível comercialmente em famácias brasileiras contendo derivados da Cannabis sativa ou da Cannabis indica é o Mevatyl, da Ibsen, no formato de frascos para spray. O Mevatyl contem canabinoides. Baseado em informação preliminar, o custo deve oscilar entre R$ 1000 e R$ 3000 ao mês.

Existem outros medicamentos a base de canabinoides que podem ser importados. Nós conhecemos e já utilizamos na prática clínica os comercializados pela Cannameds, que tem 4 tipos: cápsulas, óleo para ser usado em gotas, com THC e sem THC. O preço dos medicamentos importados pode ser menor que o do Mevatyl, e, como ocorre com qualquer medicamento, cada médico terá sua preferência. Não existem genéricos ainda.

A indicação na bula autorizada pela ANVISA é a espasticidade de esclerose múltipla, mas o uso em epilepsia em também é muito conhecido e aceito internacionalmente pelos médicos. A analgesia de dores crônicas é um grande campo de uso clínico. Outras possíveis indicações podem vir a ser autismo e Alzheimer, mas só existem estudos em animais até o momento. Estudos em humanos ainda são pré-clínicos. Espasticidade é a rigidez, o endurecimento que as partes do corpo paralisadas pelas lesões da esclerose múltipla apresentam. Esta rigidez, quando extrema, causa dor. Portanto, tomar cabinoides e canabidiol para dor funciona com mais certeza quando a pessoa tem esta espasticidade, que precisa ser reconhecida por um neurologista.

Curiosamente, no caso da epilepsia, existe uma contra-indicação expressa na bula do Mevatyl, embora seja assunto de TV aberta que canabinoides sejam muito úteis em certas formas de epilepsia. Talvez esta advertência na bula do Mevatyl seja pela presença do THC, que é o principal princípio ativo da maconha e do haxixe. Ou seja, este medicamento tem o efeito psicotrópico da maconha e do haxixe.

Diz ainda que a venda é sob prescrição e que causa dependência, o que não é verdade. Deve ter sido colocado na bula para satisfazer um lobby anti-maconha existente no Brasil e em outros países de influência dos EUA. Embora muita gente goste de usar maconha, nos países árabes uma grande parte da população usa haxixe liberalmente há milênios. Não ocorre dependência química como ocorre com heroína, cocaína, álcool ou remédios tarja preta. A dependência que pode ocorrer é muito mais psíquica, vontade de usar. Talvez, como está a política atual, o preconceito contra a maconha seja a verdade contra os árabes, ou contra o islamismo, sei lá. A ciência mostra que álcool e nicotina causam muito mais dano à saúde pública que derivados de cannabis.

Além disso, o Mevatyl é contra-indicado na bula em portadores de doenças psiquiátricas, especialmente doença psicótica ou esquizofrenia.

E assim está a situação no Brasil atualmente, com respeito a canabinoides e canabidiol.

Dr Paulo Bittencourt

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